De como me tornei professor

A decisão veio cedo. Jovem ainda, aluno do ensino colegial, que era o nome que se dava na época. 1990. Foi nas aulas de Filosofia. As discussões em sala de aula e a repercussão delas em minha cabeça, tudo era diferente do que antes eu imaginava. O problema do ser, da linguagem e do conhecimento – enfim, o problema da “razão”. Foi a descoberta do pensamento, da reflexão, do diálogo com uma tradição. E foi o professor, José Sérgio, quem me iniciou nas trilhas da Filosofia.

E hoje em dia, fico pensando o quanto eu carrego ainda das aulas do Zé Sérgio. Às vezes percebo coisas que faço em sala de aula que aprendi, foi ali mesmo, quando eu era aluno dele. Não que eu o imite, não de caso pensado; mas suas aulas me marcaram profundamente, mesmo depois de quinze anos, do tempo em que fui aluno dele até o momento em que comecei a lecionar. Nem me dava conta disso, até reconhecer o quanto minhas aulas têm em comum com aquelas do Zé. Inclusive a lousa.

Quando eu tinha a idade dos meus alunos – e só agora me dou conta de que muitos deles estavam nascendo naqueles anos a que me reportei. Seja como for, não tomo essa experiência como um modelo a ser seguido, nem como nostalgia. As condições são outras, as escolas são outras e os alunos, outros também. Se recuo até meus tempos de escola é para reconhecer ali o sentido da palavra “formação”. Ao resgatar da memória a experiência do aluno que fui, reconheço traços dela no professor que sou. E nisso, sem sombra de dúvida, sou absolutamente tributário do Zé Sérgio.

Segundo posso julgar, creio que em todo professor haja marcas do aluno que ele foi e também da admiração que algum antigo professor tenha lhe causado – uma tal admiração que se transformou em exemplos que perseguimos quando nos tornamos professores, assim como, pelo contrário, um professor “repulsivo” que por ventura tivemos se transforma em exemplo do que evitamos. Ou, trocando em miúdos, nossa “formação” de professores tem início desde os anos de escola que vivemos, esse é o ponto.

A memória de nossas experiências de aluno então muito tem a dizer acerca do que pensamos sobre a escola, sobre o currículo e até sobre o modo de lidarmos com os alunos, ainda que reconheçamos que o tempo de agora é outro. Mesmo que recuássemos mais no tempo, a “escola de outrora” é uma referência a que nos apegamos a partir da qual, de modo mais consciente ou menos, avaliamos e examinamos a escola de hoje, julgamos positiva ou negativamente a escola que temos.

E, mais, é essa memória que ainda orienta nossa prática de ensino pelos caminhos que seguimos e pelos caminhos que evitamos. Isso tem a ver com cada uma de nossas escolhas didáticas, os recursos de que lançamos mão, o modo que organizamos a aula – em tudo isso há algo que incorporamos de nossa memória, ainda sem que saibamos precisar o que foi incorporado. Trata-se portanto de uma memória involuntária e mesmo inconfessada ou esquecida, por paradoxal que pareça, mas que incorporamos ao tomarmos parte de uma tradição – a tradição escolar e a do ensino de nossa disciplina, quando reconhecemos que, por mais que a escola tenha mudado, que os tempos afinal são outros, a instituição escola mantém ainda vários traços do que ela era há 50 anos atrás, por exemplo. E nisto, não há nada de mal. Pelo contrário, são os traços que determinam sua existência enquanto “escola”, ou seja, como uma instituição – com a cultura, os costumes e os valores que lhe são próprios, reconhecidos assim por seus membros e pela sociedade.

Foi com o Zé também me iniciei nos estudos de Educação, uma das disciplinas optativas que era oferecida entre outras no 2º ano do colegial. Os alunos escolhiam uma dessas disciplinas para estudar e desenvolver uma monografia, a que chamávamos de “tese”, sob orientação do professor responsável, um exercício de preparo para a futura vida acadêmica do qual tirei algum proveito. Na ocasião, escrevi sobre as relações entre Educação e promoção da Democracia – um texto de juventude, mas de um tema entre aqueles de que jamais soube me desvencilhar, sempre repensando a questão segundo novos termos e os novos contornos que ela veio a assumir.

No ano seguinte, o Zé desenvolveu o programa regular de Filosofia, cujo foco era a Política: a questão do poder, do Estado, dos conflitos na sociedade, os mecanismos de controle e dominação, a ideologia – debates que retomavam excertos de autores clássicos e chegava aos mais contemporâneos. A reflexão sobre a política nos fazia ver a conexão entre as aulas das ciências humanas – a História, da transição do feudalismo ao capitalismo e o seu desenvolvimento até a Guerra Fria, e a Geografia, cuja temática era então a “nova ordem mundial”, com o remodelamento dos Estados Nacionais e o fenômeno da globalização.

Ainda tive a oportunidade de escolher nesse ano uma disciplina optativa, História e Filosofia da Ciência, ministrada por dois professores, ainda o Zé Sérgio, e Walmir, que era professor de Física e Astronomia. Novas conexões saltavam aos olhos, relações entre ciência básica e técnica, o desenvolvimento das ciências da natureza conforme seu contexto histórico e social, a discussão do método científico e dos paradigmas – enfim, reflexões que davam uma nova perspectiva para mirar o que aprendíamos nas aulas de Física (e seu matematismo), mas também nas de Biologia e de Química.

As condições eram outras e a escola em que estudei também era diferenciada; estudei no Colégio Oswald de Andrade, nos dois últimos anos do colegial, 90 e 91. Mas em boa medida, estas questões que foram suscitadas em sala de aula, elas permaneceram ao longo dos anos de Faculdade, também – e, é claro, com outras referências e outros professores que se tornaram importantes e que também carrego comigo, em sala de aula, como parte da minha formação. No entanto, e é isso que eu queria deixar aqui como registro, é esta idéia de que, a formação de um professor se inicia na sala de aula, no seu tempo de estudante, coisa que por vezes é esquecida dos programas de formação continuada de professores, de que nível for – dos cursos de “reciclagem” às discussões em nossas reuniões pedagógicas.

Mantenho contato até hoje com o Zé Sérgio. Durante meus tempos de Faculdade, ele se tornou professor na USP, mas na Faculdade de Educação. Mas não fui mais seu aluno. Já não éramos mais professor e aluno – mas uma superação disso. Nossos interesses teóricos talvez tivessem se afastado, as referências a autores também. Contudo, um interesse comum era preservado, ou cultivado, como valor e prática engajada. É que os tempos primeiros da minha formação em Filosofia ainda imperavam e imperam sobre os caminhos a seguir. Caminho que leva ao encontro consigo mesmo, como realização, mas que também é encontro com o outro, o Zé, a quem nutro enorme admiração, chamada de exemplaridade.

[out.2007]

Em tempo: Nestas Crônicas de Escola, está publicado o vídeo com uma conferência do Zé, aqui, sobre o tema Educação e Direitos Humanos. Testemunho que o Zé não era muito diferente disso em sala de aula, há 20 anos.

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Uma opinião sobre “De como me tornei professor”

  1. Tive o prazer também de ser aluna do prof. José Sérgio e concordo que ele é fenomenal.
    Que bom poder encontrar profissionais que amam o que fazem!

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