Gramsci

Um programa para o ensino de Filosofia

Considerações à leitura do texto “Todo homem é filósofo”, de Antonio Gramsci

Eduardo Amaral

I

Iniciamos nossas aulas com uma primeira leitura do texto em que o filósofo italiano Antonio Gramsci discute, em sua concepção, o que é a filosofia e o que cabe à atividade filosófica. — A maioria entre os alunos considerou o texto um tanto difícil de ser compreendido. Era de se esperar, porque no texto há toda uma concepção de mundo implícita e que, para compreendermos bem as palavras do autor, ela precisará ser explicitada.

Contudo e antes de mais nada, é bom dizer também o porque da escolha deste trecho para uma retomada do ano letivo. Por um lado, se notarmos bem, é o próprio ensino da Filosofia o assunto do texto. Não se trata, particularmente, do ensino escolar da Filosofia ou de uma disciplina chamada Filosofia. Mas sim de uma filosofia que zanza por aí… — Por outro lado, permitam-me dizê-lo (porque é bom que se diga) este texto me soa como minha confissão. Sem modéstia ou falsa imodéstia, penso que muito do que se lê neste texto é, de algum modo, similar à prática de sala de aula e às estratégias que este professor lança mão para apresentar um conceito… Trocando em miúdos, ao ler o texto, eu pude me reconhecer nele, me identificar com suas ideias e também, por assim dizer, me identificar com seu programa.

A primeira coisa que nos chama a atenção é como o trecho foi intitulado: “Todo homem é filósofo”. Não sei se o título é ou não do próprio autor, mas é bastante adequado para trazer presente a ideia de que todos e cada um de nós já somos filósofos. Com efeito, o texto começa com uma advertência contra o preconceito de que a filosofia seria coisa difícil e reservada a uma classe especializada de intelectuais, de “filósofos profissionais” — aqueles que, como eu, se ocuparam em estudar História da Filosofia, Ética e Política, Estética, Lógica, Epistemologia, Filosofia da Ciência entre outras disciplinas constantes nos currículos dos cursos de graduação em Filosofia. Pelo contrário, diz Gramsci, a filosofia é atividade comum a todo homem: todos somos filósofos, ainda que não tenhamos muita consciência disso…

Antes de avançarmos, cabe ainda dizer o seguinte: este preconceito, “muito difundido”, sempre serviu de argumento para afastar a filosofia do “homem comum”. Houve e ainda há entre os especialistas quem considere a Filosofia algo muito específico – difícil – e que, por aqui, ao “descer às salas de aula do ensino médio”, perderia sua especificidade e que, por isto, a Filosofia deveria ficar restrita ao ensino superior, quando não apenas como área de especialização após a graduação. De onde se pode perceber claramente a força desta afirmação do texto, quando discutíamos há poucos anos atrás a volta da Filosofia como disciplina obrigatória nos currículos escolares do ensino médio. Ora, se cada um dos estudantes já é um filósofo, então é possível ensinar Filosofia.

Vou dizer sem muito rodeio: a Filosofia cuida de conceitos; cuida portanto da forma em que nós concebemos as coisas pelo pensamento (ou seja, o “conceito”, conceptus em latim, ‘o que é concebido’), de como pensamos nelas – donde se costuma dizer que a Filosofia ensina a pensar. Trata-se de tornar mais consciente para nós as nossas concepções de mundo, de modo que possamos ter uma visão mais clara e crítica sobre aquilo que pensamos.

Mas agora, já avançamos demais. Dizer que todos somos filósofos não significa que todos temos consciência disto ou que todos saibamos bem ao certo os conceitos com os quais lidamos ao pensar. É que, mesmo na mais simples atividade intelectual — tal como afirmar uma opinião qualquer —, sempre que exercemos a capacidade que temos de produzir ideias, por mais vagas que sejam, estamos lidando com conceitos: concebemos em pensamento o que pensamos, dizemos e fazemos. E tais conceitos, eles participam de uma certa visão-de-mundo — ou, como está no texto, uma concepção de mundo. Ou seja, mesmo sem sabermos, quando pensamos, falamos ou agimos, partilhamos uma determinada visão-de-mundo, por exemplo, como aquela que dizia que a Filosofia é coisa dificílima e não é para qualquer um, a cada vez que dissermos que a Filosofia não serve para coisa alguma.

Na visão-de-mundo de Gramsci — e da qual compartilho —, na concepção que ele faz da filosofia, ela é para todos, porque todos somos filósofos. Isto porque existe, por assim dizer, uma “filosofia espontânea” a toda gente, um conjunto de conceitos e noções que herdamos da nossa história e que zanza por aí, isto é, uma filosofia que está contida na linguagem que falamos no nosso dia-a-dia, no modo comum de pensar e perceber o mundo, em nossas crenças e opiniões, na nossa cultura e também no modo de agir… mas uma filosofia da qual nem temos muita consciência.

Ocorre que nem sempre nos damos conta do que é que dizemos quando falamos algo. As palavras que nos habituamos a usar, nossa linguagem cotidiana, “é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo”. Estas noções e estes conceitos operam sobre o que pensamos, no uso que damos a uma palavra. E quando falamos, a palavra vem carregada de um sentido que vai além do seu estrito significado, aquele que encontramos no dicionário… O sentido que damos a uma palavra vem em conexão ao contexto em que a empregamos — e é aí que reside o conceito que se articula a uma concepção de mundo, aquilo que de fato dizemos.

Tal é o ponto de partida para uma aula de Filosofia. Primeiro, lidar com as palavras e perceber nelas como um conceito opera. A cada início de ano letivo, repito a mesma aula, sobretudo para as turmas novas – aula que considero ser um bom exemplo do que apresentamos há pouco – que parte do uso habitual (e um tanto irrefletido) das palavras natural, comum e normal, tornadas quase sinônimas. Mas não: cada palavra remete a um conceito absolutamente distinto dos outros; confundi-los assim é naturalizar tudo o que é comum e considerá-lo como a norma. (A aula está disponível aqui.)

O que cabe à filosofia

Há duas alternativas possíveis frente a esta concepção de mundo que adquirimos meio que espontaneamente. Ou apenas a acolhemos, passivamente, obedecendo, acatando a “normalidade” imposta pelas autoridades e conformados a este mundo que aí está, como que paralisando a história, por uma concepção de mundo absolutamente conservadora do atual estado das coisas, ou então ao exerceremos a crítica, consciente e ativamente, seremos inconformados — o que nos permite pensar em um outro mundo possível, compreendendo as atuais condições históricas e culturais formuladas em uma nova concepção de mundo, para podermos então transformá-las. Não é outra senão esta a alternativa que cabe ao ensino de filosofia. A filosofia de Gramsci é um chamado para a ação, para nossa intervenção em nossa própria história.

Próxima aula, “O espírito de nossa época”: um comentário acerca da filosofia de Hegel.

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2 opiniões sobre “Um programa para o ensino de Filosofia”

  1. Todo homem é filosofo! Mas nem todos tem o discernimento metodológico proporcionado excepcionalmente pela filosofia. A critica contra o argumento de que a filosofia é um estudo reservado a uma classe especializada de intelectuais, é primeiramente um grito de revolta do bem comum, e um tapa na cara dos intelectuais que nunca ouviram falar sobre o sentido virtuoso e genuíno da filosofia enquanto conhecimento humano. Cabe a filosofia, enquanto conhecimento adquirido a ser doado, tornar com que ela da forma mais coloquial possível ser difundida aos poucos, para que este mesmo homem que é filosofo enquanto existencial e finito, seja mais que isso, seja o bem comum armado de critica racionalizada na base fundamental que é a filosofia e sua historia.

  2. Olá Eduardo,

    parabéns pelo texto. Esta é sem dúvida uma bela contribuição de Gramsci, um golpe num fundamento da visão conservadora de mundo, que quer reservar a poucos a nobre tarefa de pensar e retirar dos muitos sua dignidade intelectual. Somos todos filósofos, somos todos intelectuais, capazes de crítica e de tomar consciência das múltiplas determinações, que nos fizeram chegar até onde estamos, crer no que cremos…
    Você escolheu sem dúvida, um belo programa. Tornar evidente que todos somos filósofos é democratizar este instrumento de permanente conhecer a si próprio, que pode ser a Filosofia, de permanente crítica e reconstrução de nossa concepção de mundo.

    A trabalhosa tarefa de construir uma nova sociedade, de revolucionar seus fundamentos mais íntimos não pode deixar de passar pela compreensão das “atuais condições históricas e culturais” fora dos quadros da normalidade dada. É necessário formulá-las “em uma nova concepção de mundo”, uma contra-visão-de-mundo, pois só assim podemos tomar consciência dos nós que nos prendem e do papel que exercemos em nossa própria opressão. O empenho na construção desta nova concepção de mundo é essencial se quisermos disputar projetos de vida em comum, de concepções compartilhadas da realidade, que abram o caminho para um mundo em que a produção do consenso e do bem comum sejam superiores às relações coercitivas à apropriação por poucos, do que é de todos.

    Abraços contra-hegemônicos

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